"Não sei amar-te aí, é o caso. Porque só se pode amar na perfeição, depois o amor perde o nome e é outra coisa. Devias ter morrido quando te conheci para ser impossível morreres. Devias ser tudo então para não haver mais nada depois. Esgotares o teu possível para não haver mais possível. Mas houve, acabou-se. (...) Nesta casa estou só com o meu corpo, lembro-me muito bem de quando éramos os dois num só e íamos criar o mundo todo como era da nossa obrigação. Nós saíamos de um baile, não sei se te recordas, era uma noite de verão. Caminhávamos à beira-rio e éramos imensos. Gostava de saber agora bem o que éramos. Tínhamos a verdade toda porque não queríamos mais nada. E tínhamos a beleza porque estávamos contentes, mas não sabíamos bem de quê. Era um momento excessivo em que talvez Deus aparecesse. Era um desses instantes em que tudo oscila e é de mais e só é plausível matarmo-nos. Não havia em nós humanidade bastante, era plausível. Estávamos tremendamente ao pé um do outro como nunca, e isso era terrível. Não havia ninguém perto a partilhar de nós. Tínhamos vindo da festa, deves estar lembrada. E eu amava-te tão estupidamente animalmente. Havia a tua beleza um pouco insolente agressiva, era talvez prudente aniquilá-la para que nenhum deus a desejasse. Era talvez sensato destruí-la para que ninguém mais a visse e a vida reentrasse na sua ordem natural. Estou-o pensando agora com muita força, querida. Eras de outra natureza de seres viventes, de outra ontologia, é o que me parece agora. Como diabo podia eu ascender a ti com o meu desastre de ser humano?"